domingo, março 30, 2008

a garota no seu colo [ ou cuida bem dela ]

muito cuidado com a garota no seu colo
ela canta músicas de fim de tarde
em maginíficas performances solo.
Tenha sensibilidade e seja paciente


muito cuidado com a mulher do seu lado
ela é extremamente forte e confiante
talvez seja melhor você ficar calado
mas se falar, seja transparante
(acima de tudo)


tem que saber apreciar o silêncio
tem que saber falar sem palavras
tem que ser devagar e intenso
tem que usar sinestesia e metáforas
tem que saber a forma e o momento
tem que lapidar as pedras encontradas

observe com cautela os movimentos de seu olho

cuida bem dela
que eu a conheço muito bem
que eu gosto dela como ninguém
que com ela eu me sentia tão bem...

domingo, março 02, 2008

o som [ou o abrigo na sua mente]

o som que escorregou pelo céu da boca
molhou os lábios e saiu macio,
sem nenhuma ponta
saiu feito um pássaro que foge da gaiola
cauteloso, mas impulsivo,
antes que passasse da hora
uma voz, ainda que intensa, tímida e rouca
soou como caetano
soa numa vitrola
abriu seus cabelos e balançou sua argola
esperou um segundo,
uma hora, um ano
pra abrigar aquele ouvido, balançar
no tímpano
e quando se viu solto no ar, pronto,
sem nenhum engano
para se refugiar, amortecido, lançar:
te amo

Amarena [ ou estadia em você]

eu atravessei sua rua
na ponta dos pés
eu fiquei do outro lado da porta
e eu gritei pra você
você demorou pra abrir
eu pensei que não tivesse ninguém
eu entrei na sua casa
meio recém-nascido, engatinhando
algumas voltas pela sala
enquanto você se preparava
eu me sentia levemente incomodado
pedi licença e deitei no chão
esperei você ficar do meu lado
e apertar minha mão
as persianas entreabertas
e os espelhos davam misticidade ao lugar
e nós finalmente experimentamos
a textura da realidade, afundados no sofá
extremamente conscientes
mas meio adolescentes
a gente falou sobre futuro e liberdade
como se fossemos donos da verdade
mas nós somos de verdade
e nós temos a nossa verdade
transbordando de todos os poros
você fechou os olhos
eu prendi a respiração
nós mudamos as cores do planeta
sinos, bumbos e cornetas
nós cantamos junto
em unissono
e nossa voz ecoava e acariciava
cada cômodo
cada detalhe, agora,
cintilava pros meus olhos
gritava nos meus ouvidos
eu fui atento e decorei
suas formas e seus passos
seus tons e seus compassos
projetei no fundo da minha cabeça
cada minimidade expressa
cada olhar era uma promessa
e a sua casa , agora,
tinha os dizeres "Bem vindo,
a qualquer hora"
mas mal me fala em hora
e olha o que vem vindo...
_Por favor, não vai embora...
te beijei meio com pressa
por alguns segundos
o tempo não se foi em vão,
mas se foi, era incontestável
não tinha nenhuma razão
mas é simplismente assim
que as coisas funcionam
depois de provar seu doce
e te transformar em energia
e de concretizar a abstração
ainda embriagado com o sabor da amarena
eu digo, te amar, pequena .
era a hora
nem tudo que começa termina...
foram vinte e sete meses
andando longe de você
entrando em casas diferentes
e conhecendo gente
vinte e sete meses.
eu não tenho idade
pra ter vinte e sete meses!
e eu meio velho cansado
já não aguento esses passeios
meio coração calejado
por esses motivos alheios
eu, triste e inacabado
sem mais rodeios
rodei a maçaneta e saí
e talvez por isso nunca mais volte,
mas tenho na cabeça
eternizado agora
as cores dos dias em que eu te vi
mas tenho na gaveta
guardado agora
a historia dos dias que eu vivi