domingo, maio 18, 2008

companheiro [ ou que ainda não chegou a ser]

tinha esse muleque
terminando o que chamariam de primeira fase da sua vida
ele tinha essa inconstância
e tinha essa ânsia, essa ansiedade
por tudo que não tinha ainda...
mas que ainda teria, com certeza teria
e acabou por escrever milhões de palavras em homenagem a esse futuro
se tornou um amigo especial do erei, do arei, do irei,
do iria, do um dia, ainda um dia, do inseguro
ele tinha uma certeza enraizada num solo tão insólido,
que é o ainda-não-acontecido,
mas ele regava essa vida
ele rogava por vida
e ele esperançava
e o passado ele podia até ter esquecido, mas o futuro,
o futuro era eterno, e sempre será.
esse garoto tinha sonhos sem tamanho
tinha pensamentos que não caberiam em qualquer outro
ele era maior que seu corpo
...e por isso ele tinha a mim... pra se manter coeso
pra dividir o peso...
porque eu cabia nele e ele em mim
porque eu nao reclamava muito
eu gostava de estar ali,
eu guardava seus planos, suas miragens
era seu companheiro de viagens
eu o ajudava a arrumar as malas
era eu quem mantinha seu núcleo estável...
ele às vezes deitava na cama
às vezes deitava na grama
e deixava a porta aberta
deixava entrar
compartilhava comigo
o seu universo pessoal
me deixava vasculhar
os seus vazos mais internos
me alimentava de sua seiva
e eu ficava impressionado
com o sabor das infinitas possibilidades
com o novo mundo de novidades
que ele me mostrava, só pra mim
era extraordinário, ele era
apenas um garoto, e o fato é
que ele ainda é...
e eu sei que sem saber ele me ama
eu, eu tenho um sentimento diferente
não que seja menor, só diferente
é como uma fruta que não cai,
uma vida em stand-by,
um trem que apenas ainda não chegou,
não chegou a ser,
um amor nostálgico, mas que não tem tempo...
talvez por isso ele me entenda tão bem
talvez por isso, por ele eu me contento...
aaah, um dia eu ainda falo, um dia ainda faço valer tudo que esse muleque tem elaborado,
um dia ainda vou ver frutificar
a árvore que todo mundo falou pra ele não plantar...
e Deus sabe o quanto eu quero
e dentro desse garoto,
pacientemente,
eu espero...

sexta-feira, maio 16, 2008

monólogo [ ou desabarfo]

eu
,corpo de fundo,
pesado e denso e único
equilíbrio instável com meu submundo
eu
,cansado e imundo,
querendo seu colo pra dormir
e esquecer de tudo
eu
,talento infecundo,
cantando solo sem diminuir
o volume nenhum segundo
eu
continuando, continuando...
e perguntando (às vezes)
até quando? até quando?

eu
to tão cansado.

quarta-feira, maio 07, 2008

a sua música [ ou psicomusicismo]

cada palavra mínima
cada pausa, cada rima
todas as notas
e as respirações
cada revelação íntima
cada causa desse clima
dessa música, você quem fez

e toda vez
que eu canto essa canção
fica mais claro
foi você quem fez esse refrão
o que corre no meu sangue...

você que me deu essa injeção

(d)esse sentimento que eu tô expondo
essa música que eu tô compondo
essa música, você me fez...
foi sua culpa, sua razão
foi por sua causa
foi pela sua mão
veio da sua conclusão
veio da sua casa
veio da sua respiração

e toda vez
que eu canto essa canção
fica mais claro
foi você quem fez esse refrão
esse ar que boto pra fora
não sai do meu pulmão

não é do meu feitio cantar assim
esse sentimento,
você me deu
não é meu, esse tom
não é meu...

esse sofrimento
não sou eu
e não é meu, esse tom
não é meu...

sábado, maio 03, 2008