tinha o fato de você ter arrumado um namorado, assim fácil. E também ter dado um passo na vida
e estar tão futura, tão adulta, assistindo vidas nascerem e acontecerem.
Tinha o fato de eu continuar ancorado
num tempo que não era confortável como o passado, que definitivamente não era um presente
e não se movia.
Tinha o fato de eu ser um dramaturgo dramático cheio de pensamentos bombando e um corpo fraquíssimo, pele e osso praticamente, me segurando. Isso e outro bilhão de razões que eu certamente ainda vou inventar. Foi isso, e logicamente a carência mais infantil, que fez com que eu, artesanalmente, elaborasse uma trama
e trançasse quase uma vida inteira, uma bomba emocional caseira, pra jogar e explodir tudo em cima dela.
Ela, que andava tranquila e cheia de si e falava alto e pausadamente e que, comparada a mim, parecia já ter vivido o triplo, psicologicamente. Ela, que não parecia precisar de nada de novo, ela que se encontrava num solitário equilíbrio sólido e principalmente não fazia a mínima idéia de mim e não pediu nada, não pediu nada.
Eu, já tinha definido e justificado e encaixado a vida dela dentro da minha,
tinha no (meu) mundo das (minhas) idéias esse amor filosófico que eu achava que esclareceria tudo
e me libertaria de mim. Gerei, criei, eduquei, deixei crescer.
Até o ponto que não cabia mais em mim. Risquei o fósforo, com muita dificuldade,
minha mão tremia de medo de tanta realidade, acendi a bomba do meu peito e agora,
concentrado, seguro, segurei firme e joguei com uma força que não era minha,
lancei-me no meio da direção dela.
Por um momento tudo mudo, mudou , ficou mais quente e uma luz imensa quase me cegou,
uma possibilidade vermelha e violenta , mas mansa. Uma possibilidade de colisão inelástica, de amor, de dança.
Mas após o estrondo e o clarão, naquele momento, minha vida parecia, de novo, qualquer coisa, tudo... menos clara.
Já estava eu falando sem pensar, tropeçando nas palavras, em mim e ela assim:
como quem acaba de sobreviver a uma explosão (como não podia ser diferente),
me olhava e me engolia de uma forma completamente indiferente,
totalmente estranha a mim e a tudo que eu dizia e não dizia (como não podia ser diferente).
Aí eu fraco, explodido, em pedaços, completamente absurdo, vi que eu estava longe demais do chão,
e nossa! que cena ridícula! eu, me vendo sem base nenhuma, me balançando desesperado
procurando um lugar pra pousar os pés...
foi então que eu compreendi (quase) tudo...
abri os braços, fechei os olhos...
estou agora só , só,curtindo a queda,
tudo que sobe desce e eu to respeitando as leis da física clássica...
eu vou esperar o baque súbito que vai, finalmente, me acordar pro que é real... talvez tenha que engessar minhas idéias, mas vai sarar, vai voltar pro lugar... é só não pensar, por um tempo. Não pensar mais, não pensar...
(Você vai ter toda essa felicidade radical que você tanto merece na vida,
eu vou me encontrar e me controlar e ela talvez, algum dia, chegue a me entender, sem me julgar.)
quarta-feira, abril 15, 2009
segunda-feira, abril 13, 2009
pra poucos [ ou interior na mão ]
eu sei
é loucura, completa falta de senso social
é quase sadomasoquismo, autoflagelação,
falar a verdade, abrir a realidade integral, assim
sem ter o cuidado de o fazer aos poucos
a sinceridade não cabe no buraco da relação
assusta, afugenta, você não aguenta
aguentar a verdade é pra poucos...
desculpa, me jogar assim na sua direção
com um corte cirúrgico aberto
com todo meu interior na mão
eu sei que é muita falta de noção
eu tenho plena consciência disso
mas do meu sonho mais antigo
no centro de tudo que eu faço
da parte mais quente de tudo que eu digo
nasce, sem eu saber a origem,
com força e peso
minha obsceção pelo primordialmente natural
pelo que é e é somente, pra mim
de fato
e se eu não expulso ali mesmo
se eu não cuspo
se eu deixo preso em mim
perco o sono, a fome e a paz...
olha aqui, escuta
exorcisa esse amor meu
opera esse tumor sentimental
segura esse bebê que nasceu
meus pensamentos são todo meu mal.
é loucura, completa falta de senso social
é quase sadomasoquismo, autoflagelação,
falar a verdade, abrir a realidade integral, assim
sem ter o cuidado de o fazer aos poucos
a sinceridade não cabe no buraco da relação
assusta, afugenta, você não aguenta
aguentar a verdade é pra poucos...
desculpa, me jogar assim na sua direção
com um corte cirúrgico aberto
com todo meu interior na mão
eu sei que é muita falta de noção
eu tenho plena consciência disso
mas do meu sonho mais antigo
no centro de tudo que eu faço
da parte mais quente de tudo que eu digo
nasce, sem eu saber a origem,
com força e peso
minha obsceção pelo primordialmente natural
pelo que é e é somente, pra mim
de fato
e se eu não expulso ali mesmo
se eu não cuspo
se eu deixo preso em mim
perco o sono, a fome e a paz...
olha aqui, escuta
exorcisa esse amor meu
opera esse tumor sentimental
segura esse bebê que nasceu
meus pensamentos são todo meu mal.
sexta-feira, abril 03, 2009
imaterial [ ou existência ]
faço mil planos, traço mil destinos
já tenho cinco diálogos complexos completos
já tenho mãos, nucas e pernas
já tenho músicas e códigos secretos
já tenho filhos
já tem o nosso amor eterno e ele já é
já existe...
é só a falta de acontecer
é só esse inconfortável vazio
que persiste...
já tenho cinco diálogos complexos completos
já tenho mãos, nucas e pernas
já tenho músicas e códigos secretos
já tenho filhos
já tem o nosso amor eterno e ele já é
já existe...
é só a falta de acontecer
é só esse inconfortável vazio
que persiste...
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