domingo, setembro 27, 2009

não nasci cantando sempre tudo no tom
que nem meu irmão
aprendi a domar meu grito
e quando quero
ainda grito mais alto que leão
em cima da carne viva morta
mais estridente que um porco morrendo
e quando não quero canto baixinho que nem passarinho
no tom que cabe, sobre meu domínio
nasci pra apreender tudo sozinho
e por isso sofro mais
por isso eu sou dificil de aceitar
porque preciso vez em quando gritar, tanto
transformar esse caos pesado
que tenho dentro
em onda, que não tem peso
e eu grito como rezo
tenho que gritar 
gritar à altura da minha dor
pra me livrar
e acabo incomodando a todos
pelo meu despudor
mas não me importo
pois enquanto tiver vida em mim
terá dor
e tanto mais terá voz
e eu não vou parar
você vai querer fazer de tudo pra me calar
pra viver a vida na ignorância
nunca saber dessas coisas todas que eu sinto
você que me ensinou, você que me gerou esse conflito
agora eu te devolvo tudo em grito. 
(e não paro)

sábado, setembro 05, 2009

Pra ele

Não é, mesmo nos dias de hoje,
banalidade quando um homem assim chora
quando fala assim, coisas esparsas, coisas muitas, muito suas
e daí lança de si, expulsa, coisas assim que de tão delicadas chegam a ser violentas
e dessa violência chegou a machucar sua mãe em um lugar que nunca havia sido machucada antes.
portanto, não é qualquer coisa.
Ele falou, falou, chorou, falou, falou e isso não são só palavras jogadas assim inconsequentemente. Ele é um homem, e se formou até o momento presente para ser homem, homem fortaleza.
E ele ainda é, porque seu corpo estrutura todo rigidez e força reforça isso, suas mãos grandes e ossos aparentes, sua sobrancelha baixa, seu tom de pele e de voz...
chega a ser meio arcaico, ele, que até impõe certo respeito, mesmo sendo jovem, sobre as pessoas, que sequer imaginam existir assuntos assim internos, secretos, seus.
Por todo mundo hoje ser tão aberto e acessível para o mundo todo e todo mundo ser meio homem e mulher e bixo ao mesmo tempo e ele não, não deve se tratar o caso como se trata esses outros modernos.
Ele não é moderno e não é errado por isso. Ele não é daqui. nem todo mundo entenderia isso.
O lugar de onde veio vive num passado.
Quando se vai pra lá, se faz uma viagem no tempo de pelo menos uns 50 anos... e é essa saudade de meio século que ele carrega em seu interior e isso é coisa demais, mesmo para um homem fortaleza. Essa idade é incompatível com seu corpo jovem que abriu a boca e disse eu te amo, sinta tanto sua falta, não aguento mais e machucou tão fundo sua mãe que chorou 50 anos junto com ele.

sexta-feira, setembro 04, 2009

aquelas noites

Quando eu era pequeno, em várias noites antes de dormir,
ele me convencia de que eu não prestava atenção em nada
e que tudo que eu falava era idiotice e que tudo que eu fazia era ridículo
e falava com uma voz baixa e densa, ameaçadora
às vezes chegava a levantar a mão, às vezes chegava a abaixá-la
e me dizia que se eu estivesse lá fora, no mundo,
eu ia apanhar muito, que eu não sabia conviver com as pessoas
que eu não podia ser de tal jeito
que me odiava, que não ia aguentar mais, que te-encho-de-porrada-muleque
mas eu não prestava atenção em nada, eu era criança
verdade que às vezes ligava o som e chorava sozinho
e conversava com Deus e pedia tanto
queria entender, queria que Ele me entendesse, que ele me entendesse
continuava a ser do jeito que não devia ser, continuava a dizer o que não devia dizer
e hoje eu presto muita atenção no que ele dizia
vejo que aquelas palavras tantas vezes me espelham hoje
porra! eu era criança, não podia me defender
dessas palavras que me atirava...
agora elas estão aqui cravadas
enferrujando minha alma
e hoje eu sou tão mais o que não devia ser
porque inconscientemente acabei acreditando nele
e hoje vejo as milhões de pequenas coisas que fui perdendo
e que ainda perco frequentemente
hoje eu penso milhões de coisas pesadas que eu não entendo
e que não aguento
hoje
sinto que tenho tanta coisa pra dizer
que me calo.