estou andando por baixo dos blocos e das árvores na Asa Norte
vale dizer que tudo está o mais seco que Brasília pode deixar
e cada passo dado é acompanhado de uma percussão de estalos e rachados e quebrados
e eu me divirto com isso, sozinho, meu espírito ri como uma criança ri. (você sabe a diferença?)
eu não estou seco, eu não sou seco
eu sou do cerrado e tenho essa cortiça grossa e me protejo do fogo
mas porque meu dentro não pertence a lugar nenhum
tenho todos os líquidos e fluidos e seivas e sangues que existem, que coexistem em mim
uma infinidade de coisas que às vezes vêm todas de uma vez
e Brasília inteira me dói
talvez seja esse meu problema, ter tudo isso e querer ter idéia de tudo
e achar que algum dia eu vou encontrar resposta e vou saber o que sobra de mim depois do tudo, por baixo da sociedade, dos controles...
todo dia eu tenho esperado ansiosamente pela hora de dormir, sonhar é virar um espectro que ultrapassa todas as barreiras de si. e acordar é cair com a cara no chão.
engraçado, lembrei agora do dia quando eu era criança e pulei do barranco mais alto e ganhei a aposta. eu caí no chão e o mundo subiu por dentro dos meu pés, pernas, virilha, estômago, pulmões, garganta, parou. ficou. o mundo se entalou na minha garganta e eu não conseguia falar mais nada. abria a boca e fazia gritos ensurdecedores, mas nada saía. tinha ficado mudo , completamente , não dava pra ser mais desesperador. e olhava pra cara do meu irmão com os olhos arregalados querendo dizer tudo que eu não conseguia e ele me entendeu, porque éramos crianças e ele era meu irmão. corremos pra algum adulto que saberia exatamente como nos ajudar, tinha que saber. corremos pra sala de um. e ao pisar na sala eu falei: "socorro!" e a mulher me olhou assustada e aí tudo perdeu completamente o sentido, pareceu que nada existiu e não ia adiantar explicar porque ela e ninguém nunca ia acreditar, ia parecer invenção, invenção de criança, porque criança ri diferente e quase ninguém entende.
eu continuo andando. e vale dizer que não sei pra onde estou indo, eu estou só fugindo... de alguma coisa pequena, que de tão pequena eu esqueço o que é, esqueci.
eu sou triste, falo em voz alta baixinho: e u s o u t r i s t e
não sei se ninguém saberia a relevância disso. que a tristeza ilumina certas coisas e a gente acaba vendo certas muitas coisas que não sei se era melhor nao ver. mas sou o que eu sou, seja lá o que for, porque sou triste, e isso me deixa feliz, minha tristeza é consciente e me mantém forte e qualquer coisa pode vir porque nada será maior que ela, porque ela não tem razão, não tem nada que possa ser feito, nenhuma solução, por isso é infinita e forte e me sustenta. é minha amiga.
Foda é que ninguém quer levar o pacote completo, ninguém quer nos conhecer os dois, ninguém enxerga nós dois, nem todo mundo tem estômago pra isso e quando chega perto o bastante que possa ver essa minha...corre...
eu não tô bem, acho que não...e canto Caetano. canto, canto, canto...os estranhos passam olham e fingem que não olham...
You don't know me, bet you'll never get to know me...you don't know me at all! theres nothing you can show me from behind the wall, nothing you can show me!
Cansei... devia voltar, devia chegar lá de novo com um sorriso gigante... mas eu sei que ia ser um sorriso pesado de pedra e ninguém ia notar, ninguém ia gostar...
como é que eu consigo andar tanto sem ir pra lugar nenhum e nem sequer ter essa intenção? que porra de espécie de gente eu sou? porque diabos eu ainda acho que existem espécies de pessoas?
eu não sei, eu não sei... eu tô preso.
não tem como escapar, a gente simplismente não existe sem essas prisões. conforta pensar assim, conforta e congela, eu tô cansado, sério.
eu preciso de alguém, agora. preciso beijar alguém e depois pegar no rosto e olhar no olho e dizer alguma coisa, depois me enfiar na nuca e sussurrar alguma coisa qualquer e abaixar minha mão e enterrar minha mão, preciso me esconder em alguém...
mas alguma coisa me impede. algo desesperador. algo preso na minha garganta
alguém, por favor...alguém adulto...alguém que saiba o que fazer
alguém me dá alguma coisa que faça isso descer...
preciso engolir alguma coisa. preciso comer qualquer coisa. alguém?
Clarice Lispector é preciso comer Clarice Lispector é disso que eu preciso.
segunda-feira, novembro 02, 2009
segunda-feira, outubro 26, 2009
devia, mas...
eu devia parar, eu sei
de pensar em você
devia, talvez, também,
parar de pensar tanto em mim
porque pensando bem
parece que o mundo tem mesmo fim
e quando fecho bem os olhos
consigo até escutar o som
da cidade quebrando
e se não abro os olhos
periga cair em mim
o trânsito com o veneno todo
que corre por aí...
se não abro os olhos
as casas das portas fechadas e luzes apagadas
me matam e me comem e me guardam pra sempre
nessa cidade inabitável e em ruínas
que eu crio toda vez que penso
em você e depois em mim
tenho que levantar dessa cama movediça
tenho que sair de baixo desse lençol
tenho que me mover, qualquer músculo, pra qualquer lado...
tenho que abrir a cortina
tenho que parar, eu sei
com a nicotina
com a cafeína
com a ...eu sei, eu sei
chega!
eu já sei!
de pensar em você
devia, talvez, também,
parar de pensar tanto em mim
porque pensando bem
parece que o mundo tem mesmo fim
e quando fecho bem os olhos
consigo até escutar o som
da cidade quebrando
e se não abro os olhos
periga cair em mim
o trânsito com o veneno todo
que corre por aí...
se não abro os olhos
as casas das portas fechadas e luzes apagadas
me matam e me comem e me guardam pra sempre
nessa cidade inabitável e em ruínas
que eu crio toda vez que penso
em você e depois em mim
tenho que levantar dessa cama movediça
tenho que sair de baixo desse lençol
tenho que me mover, qualquer músculo, pra qualquer lado...
tenho que abrir a cortina
tenho que parar, eu sei
com a nicotina
com a cafeína
com a ...eu sei, eu sei
chega!
eu já sei!
sábado, outubro 17, 2009
nada novo
nada novo aconteceu, nada...
só coisas em potencial
que eu não sei se eram mentiras
que eu invento
não sei se eram reais
que já faz tanto tempo...
a mesma babaquice
a mesma inércia
o mesmo medo
o mesmo pau mole
você tinha essa mensagem no celular dizendo "se afasta pra ninguém se machucar", que você lia todo dia, todo dia, e você virou o copo num gesto que todo meu corpo foi só vontade de te agasalhar e te tirar dali e te levar pra casa, casa que não fosse a minha e nem a sua porque não são nossas, tá vendo? também me falta isso e eu também tenho tanto frio, como vou te esquentar? como vou te salvar? te provar que você tem tudo pra me fazer de louco de bem perto de cheiro e de língua e de quase falar que amo com os pés, as mãos, o suor,e que larga tudo isso, vem pra mim que eu sou música brasileira, sou só batuque e brincadeira, que eu to cagando pro seus dez quilos a mais e eu só quero e que... e que... mas não..
você fez que sim com a cabeça
e foi
e eu devia ter agarrado seu braço
te puxado com a força de um primata amoroso hormonal
todo sangue e paixão e convicção
devia ter te laçado e enfiado uma lança no seu peito
devia ter feito você querer com toda sua alma
ficar
mas não, enfim
meu corpo tá sempre tão distante de mim
só coisas em potencial
que eu não sei se eram mentiras
que eu invento
não sei se eram reais
que já faz tanto tempo...
a mesma babaquice
a mesma inércia
o mesmo medo
o mesmo pau mole
você tinha essa mensagem no celular dizendo "se afasta pra ninguém se machucar", que você lia todo dia, todo dia, e você virou o copo num gesto que todo meu corpo foi só vontade de te agasalhar e te tirar dali e te levar pra casa, casa que não fosse a minha e nem a sua porque não são nossas, tá vendo? também me falta isso e eu também tenho tanto frio, como vou te esquentar? como vou te salvar? te provar que você tem tudo pra me fazer de louco de bem perto de cheiro e de língua e de quase falar que amo com os pés, as mãos, o suor,e que larga tudo isso, vem pra mim que eu sou música brasileira, sou só batuque e brincadeira, que eu to cagando pro seus dez quilos a mais e eu só quero e que... e que... mas não..
que tá foda, tá foda!
te falei que não ia ficar feliz com você você indo emboravocê fez que sim com a cabeça
e foi
e eu devia ter agarrado seu braço
te puxado com a força de um primata amoroso hormonal
todo sangue e paixão e convicção
devia ter te laçado e enfiado uma lança no seu peito
devia ter feito você querer com toda sua alma
ficar
mas não, enfim
meu corpo tá sempre tão distante de mim
domingo, outubro 11, 2009
torpor
se eu pudesse só enfiava o dedo na garganta
e vomitava essa pílula torpe que se dissolve aos poucos
e é infinita
e ataca meu organismo com essa angústia, essa agonia,
esse medo de não sei do que...
mas não posso
porque essa pílula não existe
não é algo que se vomite
nem que eu passasse a tomar antidepressivos
mas seria a química contra minha alma
e não é disso que eu preciso
em certo ponto eu escolhi ser assim
decidi ser poeta e sentir tudo a fundo
eu sinto muito
isso é minha arma e meu escudo
meu filtro envenenado pra tudo
já não sei como fugir
não existem portas fáceis de abrir
também não tenho certeza se é disso que preciso
se a solução é mesmo ser esse espelho cego
se é seguir os passos dos outros sem perguntar nada
sem pensar, será?
"como ser fácil?" "como ser aberto?"
"como viver a vida de perto?"
não sei como ejacular isso da alma
tem uma coisa presa no meu espírito
uma raposa, bicho selvagem
virgem, perdido na cidade caos
no submundo terreno vadio
suplicante e tentador...
como se quebra uma muralha de pedra
dentro da pele
sem se machucar
sem morrer?
torpor
tor.por
sm (lat torpore) 1 Falta de ação ou de energia física; entorpecimento. 2 Indiferença ou inércia moral. 3 Med Estado em que a sensibilidade, a motilidade e a atividade psíquica estão reduzidas de tal forma que o paciente não tem consciência exata do que se passa em torno dele ou com ele.
e vomitava essa pílula torpe que se dissolve aos poucos
e é infinita
e ataca meu organismo com essa angústia, essa agonia,
esse medo de não sei do que...
mas não posso
porque essa pílula não existe
não é algo que se vomite
nem que eu passasse a tomar antidepressivos
mas seria a química contra minha alma
e não é disso que eu preciso
em certo ponto eu escolhi ser assim
decidi ser poeta e sentir tudo a fundo
eu sinto muito
isso é minha arma e meu escudo
meu filtro envenenado pra tudo
já não sei como fugir
não existem portas fáceis de abrir
também não tenho certeza se é disso que preciso
se a solução é mesmo ser esse espelho cego
se é seguir os passos dos outros sem perguntar nada
sem pensar, será?
"como ser fácil?" "como ser aberto?"
"como viver a vida de perto?"
não sei como ejacular isso da alma
tem uma coisa presa no meu espírito
uma raposa, bicho selvagem
virgem, perdido na cidade caos
no submundo terreno vadio
suplicante e tentador...
como se quebra uma muralha de pedra
dentro da pele
sem se machucar
sem morrer?
torpor
tor.por
sm (lat torpore) 1 Falta de ação ou de energia física; entorpecimento. 2 Indiferença ou inércia moral. 3 Med Estado em que a sensibilidade, a motilidade e a atividade psíquica estão reduzidas de tal forma que o paciente não tem consciência exata do que se passa em torno dele ou com ele.
domingo, outubro 04, 2009
embrionário
existe um ser
dentro de uma casca
destrambelhado
batendo com a cabeça
lutando para nascer
e se machuca
e muitas vezes perde a consciência
porque é escuro lá dentro
e as coisas perdem o sentido
porque não vê cores
e os sons que escuta são seus ecos
este ser é belo
mas ninguém vê
estes sons são música
mas ninguém escuta
de tanto chutar e bater
pra todos os lados
sem saber o porquê
um dia essa casca quebra
mas há de manter
os olhos abertos pra ver
quando a luz começar a entrar
quero ouvir você cantar
quero ver você sorrindo
...porque eu tô te esperando.
dentro de uma casca
destrambelhado
batendo com a cabeça
lutando para nascer
e se machuca
e muitas vezes perde a consciência
porque é escuro lá dentro
e as coisas perdem o sentido
porque não vê cores
e os sons que escuta são seus ecos
este ser é belo
mas ninguém vê
estes sons são música
mas ninguém escuta
de tanto chutar e bater
pra todos os lados
sem saber o porquê
um dia essa casca quebra
mas há de manter
os olhos abertos pra ver
quando a luz começar a entrar
quero ouvir você cantar
quero ver você sorrindo
...porque eu tô te esperando.
domingo, setembro 27, 2009
não nasci cantando sempre tudo no tom
que nem meu irmão
aprendi a domar meu grito
e quando quero
ainda grito mais alto que leão
em cima da carne viva morta
mais estridente que um porco morrendo
e quando não quero canto baixinho que nem passarinho
no tom que cabe, sobre meu domínio
nasci pra apreender tudo sozinho
e por isso sofro mais
por isso eu sou dificil de aceitar
porque preciso vez em quando gritar, tanto
transformar esse caos pesado
que tenho dentro
em onda, que não tem peso
e eu grito como rezo
tenho que gritar
gritar à altura da minha dor
pra me livrar
e acabo incomodando a todos
pelo meu despudor
mas não me importo
pois enquanto tiver vida em mim
terá dor
e tanto mais terá voz
e eu não vou parar
você vai querer fazer de tudo pra me calar
pra viver a vida na ignorância
nunca saber dessas coisas todas que eu sinto
você que me ensinou, você que me gerou esse conflito
agora eu te devolvo tudo em grito.
(e não paro)
que nem meu irmão
aprendi a domar meu grito
e quando quero
ainda grito mais alto que leão
em cima da carne viva morta
mais estridente que um porco morrendo
e quando não quero canto baixinho que nem passarinho
no tom que cabe, sobre meu domínio
nasci pra apreender tudo sozinho
e por isso sofro mais
por isso eu sou dificil de aceitar
porque preciso vez em quando gritar, tanto
transformar esse caos pesado
que tenho dentro
em onda, que não tem peso
e eu grito como rezo
tenho que gritar
gritar à altura da minha dor
pra me livrar
e acabo incomodando a todos
pelo meu despudor
mas não me importo
pois enquanto tiver vida em mim
terá dor
e tanto mais terá voz
e eu não vou parar
você vai querer fazer de tudo pra me calar
pra viver a vida na ignorância
nunca saber dessas coisas todas que eu sinto
você que me ensinou, você que me gerou esse conflito
agora eu te devolvo tudo em grito.
(e não paro)
sábado, setembro 05, 2009
Pra ele
Não é, mesmo nos dias de hoje,
banalidade quando um homem assim chora
quando fala assim, coisas esparsas, coisas muitas, muito suas
e daí lança de si, expulsa, coisas assim que de tão delicadas chegam a ser violentas
e dessa violência chegou a machucar sua mãe em um lugar que nunca havia sido machucada antes.
portanto, não é qualquer coisa.
Ele falou, falou, chorou, falou, falou e isso não são só palavras jogadas assim inconsequentemente. Ele é um homem, e se formou até o momento presente para ser homem, homem fortaleza.
E ele ainda é, porque seu corpo estrutura todo rigidez e força reforça isso, suas mãos grandes e ossos aparentes, sua sobrancelha baixa, seu tom de pele e de voz...
chega a ser meio arcaico, ele, que até impõe certo respeito, mesmo sendo jovem, sobre as pessoas, que sequer imaginam existir assuntos assim internos, secretos, seus.
Por todo mundo hoje ser tão aberto e acessível para o mundo todo e todo mundo ser meio homem e mulher e bixo ao mesmo tempo e ele não, não deve se tratar o caso como se trata esses outros modernos.
Ele não é moderno e não é errado por isso. Ele não é daqui. nem todo mundo entenderia isso.
O lugar de onde veio vive num passado.
Quando se vai pra lá, se faz uma viagem no tempo de pelo menos uns 50 anos... e é essa saudade de meio século que ele carrega em seu interior e isso é coisa demais, mesmo para um homem fortaleza. Essa idade é incompatível com seu corpo jovem que abriu a boca e disse eu te amo, sinta tanto sua falta, não aguento mais e machucou tão fundo sua mãe que chorou 50 anos junto com ele.
banalidade quando um homem assim chora
quando fala assim, coisas esparsas, coisas muitas, muito suas
e daí lança de si, expulsa, coisas assim que de tão delicadas chegam a ser violentas
e dessa violência chegou a machucar sua mãe em um lugar que nunca havia sido machucada antes.
portanto, não é qualquer coisa.
Ele falou, falou, chorou, falou, falou e isso não são só palavras jogadas assim inconsequentemente. Ele é um homem, e se formou até o momento presente para ser homem, homem fortaleza.
E ele ainda é, porque seu corpo estrutura todo rigidez e força reforça isso, suas mãos grandes e ossos aparentes, sua sobrancelha baixa, seu tom de pele e de voz...
chega a ser meio arcaico, ele, que até impõe certo respeito, mesmo sendo jovem, sobre as pessoas, que sequer imaginam existir assuntos assim internos, secretos, seus.
Por todo mundo hoje ser tão aberto e acessível para o mundo todo e todo mundo ser meio homem e mulher e bixo ao mesmo tempo e ele não, não deve se tratar o caso como se trata esses outros modernos.
Ele não é moderno e não é errado por isso. Ele não é daqui. nem todo mundo entenderia isso.
O lugar de onde veio vive num passado.
Quando se vai pra lá, se faz uma viagem no tempo de pelo menos uns 50 anos... e é essa saudade de meio século que ele carrega em seu interior e isso é coisa demais, mesmo para um homem fortaleza. Essa idade é incompatível com seu corpo jovem que abriu a boca e disse eu te amo, sinta tanto sua falta, não aguento mais e machucou tão fundo sua mãe que chorou 50 anos junto com ele.
sexta-feira, setembro 04, 2009
aquelas noites
Quando eu era pequeno, em várias noites antes de dormir,
ele me convencia de que eu não prestava atenção em nada
e que tudo que eu falava era idiotice e que tudo que eu fazia era ridículo
e falava com uma voz baixa e densa, ameaçadora
às vezes chegava a levantar a mão, às vezes chegava a abaixá-la
e me dizia que se eu estivesse lá fora, no mundo,
eu ia apanhar muito, que eu não sabia conviver com as pessoas
que eu não podia ser de tal jeito
que me odiava, que não ia aguentar mais, que te-encho-de-porrada-muleque
mas eu não prestava atenção em nada, eu era criança
verdade que às vezes ligava o som e chorava sozinho
e conversava com Deus e pedia tanto
queria entender, queria que Ele me entendesse, que ele me entendesse
continuava a ser do jeito que não devia ser, continuava a dizer o que não devia dizer
e hoje eu presto muita atenção no que ele dizia
vejo que aquelas palavras tantas vezes me espelham hoje
porra! eu era criança, não podia me defender
dessas palavras que me atirava...
agora elas estão aqui cravadas
enferrujando minha alma
e hoje eu sou tão mais o que não devia ser
porque inconscientemente acabei acreditando nele
e hoje vejo as milhões de pequenas coisas que fui perdendo
e que ainda perco frequentemente
hoje eu penso milhões de coisas pesadas que eu não entendo
e que não aguento
hoje
sinto que tenho tanta coisa pra dizer
que me calo.
ele me convencia de que eu não prestava atenção em nada
e que tudo que eu falava era idiotice e que tudo que eu fazia era ridículo
e falava com uma voz baixa e densa, ameaçadora
às vezes chegava a levantar a mão, às vezes chegava a abaixá-la
e me dizia que se eu estivesse lá fora, no mundo,
eu ia apanhar muito, que eu não sabia conviver com as pessoas
que eu não podia ser de tal jeito
que me odiava, que não ia aguentar mais, que te-encho-de-porrada-muleque
mas eu não prestava atenção em nada, eu era criança
verdade que às vezes ligava o som e chorava sozinho
e conversava com Deus e pedia tanto
queria entender, queria que Ele me entendesse, que ele me entendesse
continuava a ser do jeito que não devia ser, continuava a dizer o que não devia dizer
e hoje eu presto muita atenção no que ele dizia
vejo que aquelas palavras tantas vezes me espelham hoje
porra! eu era criança, não podia me defender
dessas palavras que me atirava...
agora elas estão aqui cravadas
enferrujando minha alma
e hoje eu sou tão mais o que não devia ser
porque inconscientemente acabei acreditando nele
e hoje vejo as milhões de pequenas coisas que fui perdendo
e que ainda perco frequentemente
hoje eu penso milhões de coisas pesadas que eu não entendo
e que não aguento
hoje
sinto que tenho tanta coisa pra dizer
que me calo.
sexta-feira, agosto 28, 2009
Drama II
eles estavam comentando ali na sala
que acham que eu estou ficando louco
imaginam que não, mas eu escutei
pois eu acho que louco é pouco
porque eu estou oco, ..., oco!
foi assim que você me deixou
ta satisfeita?
é, to assim mesmo feito um idiota
não escondo, eu nao quero esconder
falo, falo mesmo, que queria...
quero mesmo agora, mais que tudo
estar com você ...
eu passo horas na tevê
e não escuto nada, nao vejo nada
horas na tevê!
só me cabe você, só me vem você
queria seu colo pra eu deitar e dizer
que te adoro e ouvir você dizer
"também, Lucas, eu também!"
mas você já tá desfilando por ai com alguém
exibindo fotos e sorrisos e abraços com esse alguém
talvez mais bonito e resolvido, alguém normal
boa sorte pra você, porque eu continuo muito mal
mas tá, beleza! , me disseram que eu acabo me conformando,
me acostumando
que eu sou forte, que eu consigo
que tudo bem
eu forjo um riso
eu cicatrizo
que acham que eu estou ficando louco
imaginam que não, mas eu escutei
pois eu acho que louco é pouco
porque eu estou oco, ..., oco!
foi assim que você me deixou
ta satisfeita?
é, to assim mesmo feito um idiota
não escondo, eu nao quero esconder
falo, falo mesmo, que queria...
quero mesmo agora, mais que tudo
estar com você ...
eu passo horas na tevê
e não escuto nada, nao vejo nada
horas na tevê!
só me cabe você, só me vem você
queria seu colo pra eu deitar e dizer
que te adoro e ouvir você dizer
"também, Lucas, eu também!"
mas você já tá desfilando por ai com alguém
exibindo fotos e sorrisos e abraços com esse alguém
talvez mais bonito e resolvido, alguém normal
boa sorte pra você, porque eu continuo muito mal
mas tá, beleza! , me disseram que eu acabo me conformando,
me acostumando
que eu sou forte, que eu consigo
que tudo bem
eu forjo um riso
eu cicatrizo
quinta-feira, agosto 13, 2009
Surpresa
_entra! eu sabia que você estava chegando...quer dizer, não exatamente... sabia que chegaria, mas não sabia que era você, nao sabia o que era de qualquer jeito...mas nossa! pega uma cadeira, senta, pode ficar
seja bem vindo de volta
olha, nem sei assim o que dizer...nunca recebi ninguém desse jeito
mas nossa! eu to tão feliz que você está de volta...já nem lembrava o quanto era diferente
quando você tava sempre presente...é que faz tanto tempo né...você não mudou nada, você tá vendo né, ou mudou? mudei? é que você parece ainda tanto comigo, você parece...que tem alguma coisa pra dizer...
_(risada meio engasgada) é, pois é...mudou um pouco
mas eu ainda estou aqui né, como você vê
sendo de novo eu
tive que vir, problema sério que você criou, muleque! (olhar sério e sorriso iluminado)
tenho algo sim pra dizer
você já sabe o que é
mas, ó, não se preocupa não
digo que tudo está bem agora
digo que você me deu vida nova e estou feliz de poder fazer parte da minha vida de novo...
tudo tá no caminho certo e tudo vai ser ouro agora porque você perdoou
eu perdoei
hoje eu levantei da cama num pulo
fui eu mesmo quem me lancei do meu sono
e meu corpo se levantou num grito de vida
a voz que saiu foi a que eu tinha quando tinha dez anos ou menos
foi um grito de vida, é
não socorro, não dor, nem suplica, nem raiva
só anunciação de vida,
hiperativa e incandescente e viva
que ansiedade! que vontade de viver!
uma parte minha ainda cheia de muito sangue e vontade
hedonista ingênua inconsequente inconsciente mágica iludida e feliz
milagrosamente levantou de um coma
estava silenciosamente esquecida havia um tempo
confundida com toda a lama que haviam jogado por cima dela
dessa parte minha, uma parte minha
que parece ter sido no meio do ultimo sonho
que assim num piscar, uou! voltou
cheia de coisas novas pra contar do passado
chegou cheia de sorrisos e pulos e sabores e palavras secretas!
que importante isso de aparecer assim de surpresa
e abraçar minha vida e falar sobre eternidade sem gaguejar...
que importante esse atrevimento
que sorte ter essa parte minha
que me lembra desse bom amigo
que eu tenho de infância
que eu perdoei
essa parte minha! nossa! obrigado!
seja bem vindo de volta
olha, nem sei assim o que dizer...nunca recebi ninguém desse jeito
mas nossa! eu to tão feliz que você está de volta...já nem lembrava o quanto era diferente
quando você tava sempre presente...é que faz tanto tempo né...você não mudou nada, você tá vendo né, ou mudou? mudei? é que você parece ainda tanto comigo, você parece...que tem alguma coisa pra dizer...
_(risada meio engasgada) é, pois é...mudou um pouco
mas eu ainda estou aqui né, como você vê
sendo de novo eu
tive que vir, problema sério que você criou, muleque! (olhar sério e sorriso iluminado)
tenho algo sim pra dizer
você já sabe o que é
mas, ó, não se preocupa não
digo que tudo está bem agora
digo que você me deu vida nova e estou feliz de poder fazer parte da minha vida de novo...
tudo tá no caminho certo e tudo vai ser ouro agora porque você perdoou
eu perdoei
hoje eu levantei da cama num pulo
fui eu mesmo quem me lancei do meu sono
e meu corpo se levantou num grito de vida
a voz que saiu foi a que eu tinha quando tinha dez anos ou menos
foi um grito de vida, é
não socorro, não dor, nem suplica, nem raiva
só anunciação de vida,
hiperativa e incandescente e viva
que ansiedade! que vontade de viver!
uma parte minha ainda cheia de muito sangue e vontade
hedonista ingênua inconsequente inconsciente mágica iludida e feliz
milagrosamente levantou de um coma
estava silenciosamente esquecida havia um tempo
confundida com toda a lama que haviam jogado por cima dela
dessa parte minha, uma parte minha
que parece ter sido no meio do ultimo sonho
que assim num piscar, uou! voltou
cheia de coisas novas pra contar do passado
chegou cheia de sorrisos e pulos e sabores e palavras secretas!
que importante isso de aparecer assim de surpresa
e abraçar minha vida e falar sobre eternidade sem gaguejar...
que importante esse atrevimento
que sorte ter essa parte minha
que me lembra desse bom amigo
que eu tenho de infância
que eu perdoei
essa parte minha! nossa! obrigado!
terça-feira, agosto 11, 2009
Drama
(tá tudo tão gostoso, tão bom
que deu até vontade de amargar um pouquinho:)arranhar a pele até reabrir a ferida
do amor mais vermelho que já tive
e saborear meu sangue com a ponta da língua
seria bom estar sozinho agora
pra gritar que nem louco
beber sangue, me imortalizar
sem parecer louco
sem aparecer pra ninguém
praticar atos que não sei o que significam
anominais , eu e amigos irreais
o amor que guardo
tatuado no avesso de mim
converso então só, pros outros
mas quando falo, já nem é com vocêé com a projeção sua aqui dentro
é na verdade sua silhueta
que na verdade se movimenta
e que faz um estrago e bagunça tudo
como que se vez em quando
arrumasse os móveis
da casa vazia que mora
e me dá uma fome, uma sede, uma saudade
preciso de um doce, de um trago,de um amargo
preciso amar alguém, preciso ficar sozinho
preciso viver pra ver, preciso me envenenar de pouquinho
em pouquinho_oi, por favor... vende picado?
então me da um, por favor
uma carolina
um sonho
e um cafézinho
minha vida
espiral insana
que vem do meu pai
e daí pra trás
tudo não para
tudo na vida que eu levo
do jeito que planejo
tudo eu sinto
que é muito chato
que é injusto
que é incompreensível
que é ótimo
tudo na vida
que eu vivo
do jeito que eu vejo
tudo que eu sinto
que me espeta
que me estanca
que me ama
e que me espanca
e não para
tudo é abstrato
tudo é falta
tudo é fatal
tudo é sonho
tudo é vitalespiral insana
que vem do meu pai
e daí pra trás
tudo não para
tudo na vida que eu levo
do jeito que planejo
tudo eu sinto
que é muito chato
que é injusto
que é incompreensível
que é ótimo
tudo na vida
que eu vivo
do jeito que eu vejo
tudo que eu sinto
que me espeta
que me estanca
que me ama
e que me espanca
e não para
tudo é abstrato
tudo é falta
tudo é fatal
tudo é sonho
nessa vida que eu trago
e faço mil vezes
a mesma coisa
e esqueço tudo
e choro sem chorar
e peço pra nunca acabar
mas acaba e não para
rala o joelho, se rala inteiro
mas nem pensa, pedala
que nessa vida que eu me meto
tudo é tarde demais
tudo é cedo demais
tudo é impreciso e faço mil vezes
a mesma coisa
e esqueço tudo
e choro sem chorar
e peço pra nunca acabar
mas acaba e não para
rala o joelho, se rala inteiro
mas nem pensa, pedala
que nessa vida que eu me meto
tudo é tarde demais
tudo é cedo demais
tudo é impressão
tudo é meta
puta merda
eu sou poeta!
puta merda
eu sou poeta!
sábado, agosto 01, 2009
do que vivo do não concreto
nosso sábio amor
só ele sabe que ainda será
só ele sabe quando reaparecerá
nosso amor maduro
seguro de si
independe de nós
ciente dos prós e dos contras
sabe que muitas vezes a gente
dá as costas
e nem se dá conta
mas ele nos entende
nosso amor de compreensão celeste
sorri com o canto da boca
ele não faz alarde
não dá falso alarme
se guarda, mas não amarga
nosso amor sabe a hora de ser
sabe quando aparecer
e ele nos perdoa
pelas armadilhas que criamos pra ele
pelos dias que o odiamos por existir
nosso amor
sabe coexistir com a raiva,
com a tristeza, com a ausência,
com a indiferença...
nosso amor acostumado com o desprendimento
e com a inconsciência mórbida que temos dele
resiste continuamente, sim, porque eu acredito.
só ele sabe que ainda será
só ele sabe quando reaparecerá
nosso amor maduro
seguro de si
independe de nós
ciente dos prós e dos contras
sabe que muitas vezes a gente
dá as costas
e nem se dá conta
mas ele nos entende
nosso amor de compreensão celeste
sorri com o canto da boca
ele não faz alarde
não dá falso alarme
se guarda, mas não amarga
nosso amor sabe a hora de ser
sabe quando aparecer
e ele nos perdoa
pelas armadilhas que criamos pra ele
pelos dias que o odiamos por existir
nosso amor
sabe coexistir com a raiva,
com a tristeza, com a ausência,
com a indiferença...
nosso amor acostumado com o desprendimento
e com a inconsciência mórbida que temos dele
resiste continuamente, sim, porque eu acredito.
terça-feira, julho 21, 2009
Faxina II
o meu cabelo
cada centímetro de desespero
que tinha raízes na minha cabeça
que crescia a cada mês
cortei, varri, joguei fora
agora, suma, desapareça!
segue junto com essas células mortas
essas tristezas e agonias tortas
que não me machuque mais
o que for desse passado
que suma junto com esse cabelo
(esse é meu apelo!)
que se insignifique e se enfraqueça
só coisas novas e inofensivas
agora na minha cabeça
que eu não me afete mais
quando vir algum rosto
que antes me fez triste e sem gosto
desinfete! se incomplete!
que renasça do avesso
de outra cor, outra textura
que seja um novo começo
de lúcida loucura
que seja assim
que saia de mim
a cura.
cada centímetro de desespero
que tinha raízes na minha cabeça
que crescia a cada mês
cortei, varri, joguei fora
agora, suma, desapareça!
segue junto com essas células mortas
essas tristezas e agonias tortas
que não me machuque mais
o que for desse passado
que suma junto com esse cabelo
(esse é meu apelo!)
que se insignifique e se enfraqueça
só coisas novas e inofensivas
agora na minha cabeça
que eu não me afete mais
quando vir algum rosto
que antes me fez triste e sem gosto
desinfete! se incomplete!
que renasça do avesso
de outra cor, outra textura
que seja um novo começo
de lúcida loucura
que seja assim
que saia de mim
a cura.
segunda-feira, julho 20, 2009
Faxina I
não preciso mais desses papéis
que levei comigo por tanto tempo
estou jogando todos eles fora
amontoando sacos e sacos
chutando eles, jogando fora
e rindo, dando gargalhadas
estou me libertando desses papéis
que me cercavam, me condenavam
esses papéis guardados, ou melhor, largados aqui
como provas de que o tempo passou
que carregam vestígios de mim
fios de cabelo com raízes, sangue
poesia às vezes e suor
poderiam até me clonar utilizando esses papéis
mas nao garanto que conseguiriam me ter
talvez conseguissem um esboço
alguém focado e preciso, mas oco.
Esse que sinto que sou
ou que estou começando a ser
e que nasce do núcleo de minhas células
à minha superfície
tem mudado muita coisa em mim
coisa que a medicina nem sonha
porque não faz mesmo sentido
talvez nem deva fazer...
O que se despedaçava por cima desses papéis
e saía largando migalhas de si por aí
vai junto, dentro dos sacos
porque é lixo e lixo, segundo o moderno dicionário da língua portuguesa,
é aquilo que se varre para tornar limpa uma casa, rua, jardim, etc.
Ou um conjunto de dados ou informações desatualizadas ou erradas,
e que não são mais necessárias.
O Lucas vazio, insípido, despedaçado, estava completamente errado
e está tremendamente desatualizado
é desnecessário.
Era,
porque já foi.
que levei comigo por tanto tempo
estou jogando todos eles fora
amontoando sacos e sacos
chutando eles, jogando fora
e rindo, dando gargalhadas
estou me libertando desses papéis
que me cercavam, me condenavam
esses papéis guardados, ou melhor, largados aqui
como provas de que o tempo passou
que carregam vestígios de mim
fios de cabelo com raízes, sangue
poesia às vezes e suor
poderiam até me clonar utilizando esses papéis
mas nao garanto que conseguiriam me ter
talvez conseguissem um esboço
alguém focado e preciso, mas oco.
Esse que sinto que sou
ou que estou começando a ser
e que nasce do núcleo de minhas células
à minha superfície
tem mudado muita coisa em mim
coisa que a medicina nem sonha
porque não faz mesmo sentido
talvez nem deva fazer...
O que se despedaçava por cima desses papéis
e saía largando migalhas de si por aí
vai junto, dentro dos sacos
porque é lixo e lixo, segundo o moderno dicionário da língua portuguesa,
é aquilo que se varre para tornar limpa uma casa, rua, jardim, etc.
Ou um conjunto de dados ou informações desatualizadas ou erradas,
e que não são mais necessárias.
O Lucas vazio, insípido, despedaçado, estava completamente errado
e está tremendamente desatualizado
é desnecessário.
Era,
porque já foi.
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